O Grande Gatsby - F. Scott Fitzgerald

O Grande Gatsby traz uma história que fiquei alguns anos com grande curiosidade para conhecer. Era comum — ainda é — encontrar pessoas por aí tecendo elogios sobre essa obra. A cada dia que se passava sem que eu tivesse contato com o livro só fazia aumentar a minha curiosidade. Mas em Março de 2014 pude, finalmente, deixar a curiosidade pra trás e conhecer os personagens dessa história de Fitzgerald.

Por mais que eu visse muitas pessoas comentando sobre o livro eu pouco sabia sobre a história, nunca assisti a nenhuma das adaptações da obra para o cinema por ter vontade de ler o livro primeiro. Então, ao iniciar a leitura tudo era novo pra mim. E foi ótimo ir descobrindo a história aos poucos à medida que virava as páginas.

Por mais que o nome Gatsby apareça no título, a história é narrada em primeira pessoa por Nick. Nosso narrador é um americano de classe média que acabou de mudar-se para o litoral leste, região próxima a New York. Ele vive em uma casa modesta que se torna peculiar pelo fato do local ser rodeado por grandes mansões. E em um desses casarões exuberantes vive seu novo vizinho, Gatsby, famoso por realizar festas extravagantes. E misterioso em relação a sua fortuna, em tempos de lei seca cogita-se que seu dinheiro venha da venda ilegal de bebidas alcóolicas. E, sobretudo, vemos em Gatsby a personificação do sonho americano.

Uma prima de Nick, Daisy — ou talvez eu devesse apresenta-la como uma das personagens mais detestáveis da literatura — também vive em uma das mansões da região e faz parte da high society, com isso, Nick acaba sendo inserido nesse mundo glamoroso e excêntrico.

Eu não me apaixonei por O Grande Gatsby logo de cara. No início da leitura — e durante boa parte da história — eu pensei que estava lendo um livro que só iria me apresentar um monte de casais em que as pessoas eram mesquinhas e adúlteras. A sensação era a de estar assistindo um reality show. Era como se eu estivesse acompanhando a vida de um monte de gente desinteressante. — Não interpretem essa colocação como algo preconceituoso, disse isso para exemplificar a sensação de estar acompanhando a vida de pessoas desconhecidas em situações corriqueiras.

Os personagens — a maioria — são muito aéreos e pouco profundos. E isso os deixava pouco cativantes aos meus olhos. Não digo isso querendo colocar a ideia de que algum personagem não possa ter defeitos — nem sei se isso será visto como defeito por todos —, mas é que a mesquinhez com que levavam a vida acabava ofuscando outras qualidades que tivessem. Isso não foi uma falha na construção dos personagens, é perceptível — a meu ver — a intenção do autor de criar esse clima desolador no que diz respeito aos relacionamentos e a vida de cada um deles. A sensação é que eles estavam um tanto perdidos em relação as suas próprias vidas para conseguirem firmar relacionamentos verdadeiros com o outro.

A princípio, as relações dos personagens que me pareciam muitos superficiais — cheio da falta de verdade, da falta de amor — mudam um pouco, da metade do livro em diante, pois a amizade do Nick em relação ao Gatsby soava verdadeira. E o foco do livro muda, pois deixamos de ter um contato direto com a vida dos personagens e passamos a acompanhar os resultados de suas atitudes e como elas irão refletir na vida de cada um. Os últimos capítulos foram, sem dúvidas, muito surpreendentes. E os últimos parágrafos, impactantes.

“Eu não podia perdoá-lo nem voltar a gostar dele, mas via que o que tinha feito era inteiramente justificável a seus próprios olhos. Eles eram gente descuidada. Quebravam e esmagavam coisas e criaturas... e, então, se entrincheiravam atrás de seu dinheiro ou se escondiam por trás de sua vasta falta de cuidado ou seja lá o que fosse que os mantinham juntos, enquanto deixavam que outras pessoas limpassem a sujeira que haviam feito...” Página 202

O que fica de mais marcante ao terminar a leitura é a dificuldade que pode ser deixar algumas coisas para trás. Algumas vezes, se aconteceu algo no passado que nos fez bem, que nos fez feliz, carregamos conosco a vontade — ou necessidade — de que aquilo se repita no presente, ou no futuro. Mas não quer dizer que porque algo foi bom, necessariamente continuará sendo caso aconteça novamente. Como saber quais coisas boas devemos manter apenas na lembrança? Aí é que está. Muitas vezes não tem como saber. Só quebrando a cara — no livro, literalmente — a gente descobre.

Essa leitura mostra a necessidade de deixarmos algumas coisas para trás, mesmo as que foram boas. E mostra também a dificuldade que pode ser, saber o que deve ser mantido apenas como uma boa lembrança e não revivido. Às vezes, na tentativa de reviver algo bom, resulta algo ruim e trágico, que acabará deixando uma nuvem negra sobre boas lembranças e fazendo com que você não viva, de fato. Pois tudo é uma tentativa de repetir algo que já foi.




Livro: O Grande Gatsby
Título Original: The Great Gatsby
Autor: F. Scott Fitzgerald
Tradução: Humberto Guedes
Páginas: 204
Editora: Geração

17 comentários:

  1. Eu sempre via alguém que tinha lido este livro, mas não tive nenhum contato com ele ou com a estória. Quando o filme foi lançado e eu li a sinopse, comecei a me interessar em ler o livro, assim como tu, eu queria ler o livro antes de ter contato com qualquer adaptação cinematográfica que teve xD
    Adorei a resenha, me esclareceu muita coisa sobre a leitura, eu tinha medo de começar a ler e não ser o que eu esperava, isso me deixou mais preparada.

    Ótimo post! :D

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    1. Pois é. Quando me interesso por alguma história que tem livro e filme procuro ter contato com o livro primeiro. Quero assistir a última adaptação com o Di Caprio, mas algumas pessoas que assistiram comentaram que não gostaram muito do filme. :{ Eu ainda não assisti, mas veremos o que vou achar quando conseguir assistir.
      Fico feliz que tenha gostado da resenha! Espero que curta a história quando for ler. :) Beijos!

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  2. Gostei da resenha, Amanda! Gosto do seu jeito extremamente pessoal de escrever. O Grande Gtasby é um dos meus livros favoritos, mas entendo o porquê de ele não agradar a todos. Adoro as simbologias de Fitzgerald nesse livro: o farol verde, a Cidade das Cinzas, o outdoor com a propaganda de um oculista...
    E Daisy não é o que parece ser. Tem uma fala dela no livro que mostra isso claramente: "I hope she'll be a fool—that's the best thing a girl can be in this world, a beautiful little fool".
    Beijo!

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    1. Oi, Eduarda! :) Que bom que gostou, fico feliz mesmo em saber! Interessante seus comentários a respeito do livro, suas observações... Você escreveu sobre ele?! Se sim, me manda o link pra que possa saber, mais a fundo, sua opinião sobre o livro. Beijão e boas leituras!

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    2. Não escrevi sobre ele, Amanda (na época não tinha blog), mas esses comentários que eu fiz estão quase todos no prefácio da edição da Penguin Companhia das Letras. Se te interessar, passa na livraria e dá uma lida.
      Para escrever sobre O Grande Gatsby, eu teria que reler. Quem sabe um dia?
      Beijo!

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  3. Eu sempre ficava com um pé atrás com esse livro, mas depois do lançamento do filme e da quantidade de resenhas que acabei lendo sobre ele, me interessei pela história. E confesso que ainda não assisti pelo fato de querer conhecer o livro antes.
    Parece ser bem interessante. Aquele tipo de clássico que dá pra ler sem muitos problemas.
    Beijos.

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    1. Oi, Babi! Eu também fiquei um tempo interessada na história, mas esse ano finalmente consegui lê-lo. Sim, a leitura não é complicada não. Mas, a meu ver, a história só vai ganhando 'forma' na metade do livro pra lá. No início é tudo um tanto vago. Mas vale a pena chegar ao final! Beijo!

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  4. Oi, Amanda!
    Gatsby é um dos meus favoritos e acho que muito disso tem a ver com como o livro meio que vai crescendo ao longo das páginas, sabe? (eu sei que já falei isso). Ele é bem lento no começo e acho que o mais fantástico eram algumas coisas que o Nick dizia enquanto narrador. Aliás, uma das melhores coisas em tudo que li do Fitzgerald até agora é a prosa, que é sempre maravilhosa. Ele tinha tanto jeito com palavras. Pra criar metáforas, pra usar a linguagem mesmo.
    Gostei muito dos últimos parágrafos da sua resenha. A gente percebe que o Gatsby não queria só a Daisy, o que ele queria era reviver aqueles momentos do passado, o que nunca ia poder acontecer, né? Tudo que ele faz é com aquele objetivo, nada no presente da narrativa é relevante pra ele, e isso tem consequências desastrosas.
    Enfim, acho o livro muito fantástico. Dei quatro estrelas também, mas acho que devia ter dado cinco hahaha Pretendo reler algum dia pra rever isso.

    Beijo!

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    1. Oi, Fernanda!
      Sim, mas a história realmente vai crescendo aos poucos e tomando forma à medida que a gente vai virando as páginas. O começo dele foi um tanto vago pra mim. Eu ia lendo e ficava me perguntando: 'tá, e aí?' - Mas da metade pra lá... Reviravoltas inesperadas!
      Pois é. Isso foi que mais me marcou na leitura. Essa obsessão do Gatsby pelo passado. A gente não o via viver realmente. Tudo era uma tentativa de fazer com que o passado se repetisse.
      Hahah, também quero relê-lo daqui uns anos!

      Beijão! :)

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  5. Li o livro ano passado pouco antes de ir ao cinema ver a adaptação cinematográfica com o DiCaprio. O filme é excelente, direção de arte, fotografia, atuações ótimas. E é bastante fiel ao livro,
    O livro não morri de amores, mas sei o quanto ele é bem escrito sobre a ruína do sonho americano e decadência de valores da sociedade.
    O final é muito bom, totalmente imprevisível.
    Gatsby é um grande misterioso personagem, já o nosso narrador é extremamente sem graça, assim como sua relação amorosa.

    mudando de assunto:
    feliz de ter ganhado o sorteio camiseta loja highway!
    estou super na dúvida de qual camiseta escolher, tem umas 4 que queria muito hehehe
    em breve respondo email com minha escolha.

    Beijos!

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    1. Oi, Shadai!
      Eu ainda não vi nenhuma adaptação, mas pretendo assistir a última que saiu. Bom saber que você gostou do filme. Vi algumas pessoas que assistiram comentando que não gostaram muito dele. Veremos o que vou achar quando conseguir assistir.
      Sim, aqueles acontecimentos, mais pro final do livro, foram realmente imprevisíveis. A relação amorosa do Nick é um tanto monótona mesmo, mas eu até gostei do personagem.

      Ah, parabéns por ter ganhado! Hahah, realmente difícil escolher. Tem um monte de estampa legal lá! :) Beijo!

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  6. Olha, taí um livro que eu desisti depois de algumas páginas. A leitura não tava rendendo, e mesmo depois de terem me dito que melhorava, deixei pra lá. Ainda tenho o livro aqui, quem sabe um dia!

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    1. Oi, Mareska! Às vezes isso acontece mesmo. Simplesmente não flui, né? A história realmente demora um pouco pra ganhar forma. No início da leitura eu ficava me perguntando onde aquilo tudo chegaria. Talvez um dia você tenha vontade de tentar lê-lo novamente, espero que a leitura flua numa próxima tentativa. :) Beijos!

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  7. Não assisti o filme nem li o livro, quero que a leitura me surpreenda, apesar de saber o básico da história. Quero muito ler O grande Gatsby logo, vou tratar de comprar meu livro!
    Parabéns pela resenha, Amanda.

    Blog: paginamofada.blogspot.com.br

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  8. Oi Amanda. Entre os clássicos esse é um dos que mais tenho vontade de ler, porque a história parece ser bem interessante. Nem assisti ao filme para não perder a vontade de ler.rs! Sem falar que essa edição da Geração é linda.
    Beijos
    All My Life in Books - Aguardo sua visita!

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  9. "Não tenho tudo que amo, mas amo tudo o que tenho", esse foi o erro do Gatsby não valorizar o que ele tinha, ele desejava tanto a Daisy, que esqueceu de desfrutar daquilo que ele havia conquistado. O capítulo final foi bem marcante para mim, devemos deixar certas coisas no passado e também não devemos deixar que nossa felicidade dependa dos outros, Gatsby de fato era determinado mas ao achar que só poderia ser feliz com a Daisy ele desperdiçou sua vida. Obteve status e fortuna e não aproveitou nada disso, da mesma forma que ele conheceu o Nick um verdadeiro amigo ele poderia ter conhecido outros, mas ele não se dava ao trabalho de conhecer nenhum dos convidados de suas festas, pois só pensava em reviver o seu passado, enquanto o seu presente foi passando.
    Enfim, não conhecia essa página, gostei bastante, você escreve muito bem.

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    1. "só pensava em reviver o seu passado, enquanto o seu presente foi passando"
      adorei sua colocação sobre a historia (:

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