A vida secreta das abelhas - Sue Monk Kidd

O meu primeiro contato com a Sue Monk Kidd foi no ano passado com o livro “A Invenção das Asas” porém, o nome da autora não era algo inédito pra mim, pois já tinha visto o livro “A vida secreta das abelhas” sendo citado e recomendado muitas vezes em lugares diversos. “A Invenção das Asas” entrou na minha lista de melhores leituras de 2014, então, sem dúvidas, quis ler outro livro da autora e, felizmente, tive minha segunda experiência positiva com suas obras.

A história é narrada por Lily, uma garota de 14 anos que vive em uma fazenda na Carolina do Sul com o pai — T. Ray — e sua babá — Rosaleen. Sua mãe — Deborah — morreu quando tinha apenas 4 anos e ela presenciou o momento da morte de sua mãe, assim como seu pai. Porém, as lembranças desse dia não são tão claras para Lily e isso a atormenta profundamente.

“Quem acha que morrer é a pior coisa do mundo não sabe nada sobre a vida.” Página 8

A relação entre pai e filha é extremamente difícil. T. Ray é rude e nunca demonstra nenhum tipo de carinho ou afeto por Lily. Ela, inclusive, nem consegue chama-lo de pai. No entanto, ela encontra refúgio em Rosaleen, que foi quem a criou desde que sua mãe morreu. Lily inúmeras vezes tentou conversar com T. Ray sobre sua mãe, mas era quase sempre repreendida de imediato. Sendo assim, tudo que lhe resta é se contentar com as vagas recordações que possui dela. 

A história se passa na década de 60 — 1960 — e o cenário daquela sociedade naquele momento era de extrema desigualdade racial. Via-se constantes confrontos entre militantes dos direitos civis e partidários da segregação racial. Rosaleen é negra e vivenciava — assim como tantos outros — essa realidade desoladora carregada de preconceito.

Em 1964 — ano em que a história se passa de fato — foi assinado o Código de Direitos Civis objetivando o livre acesso de todos os americanos nos mais diversos estabelecimentos abertos ao público — restaurantes, clubes, etc., — além do direito de voto. Pois, até então, vigoravam as Leis de Jim Crow.

“‘— Então de que adianta o Código de Direitos Civis?’, falei, parando no meio da estrada. ‘Depois desse código as pessoas não são obrigadas a receber todo o mundo que quiser ficar nos hotéis delas e comer nos seus restaurantes?’ ‘— É o que dizem, mas muita gente vai ter que gritar e apanhar antes que isso aconteça.’” Página 50

Após a notícia da vigência do Código de Direitos Civis, Rosaleen logo vai à cidade fazer o procedimento necessário para poder exercer o seu direito de voto e Lily a acompanha. Mas, no caminho, elas são abordadas por alguns homens que começam a insultar Rosaleen por conta de sua cor. Inconformada com a situação ela acaba reagindo, porém, sua atitude traz consequências desagradáveis principalmente para ela, mas também para Lily

A atual situação em que Rosaleen se encontra acaba exigindo um comportamento um tanto audacioso de Lily. Na verdade, elas não tinham um leque de opções, era o agir ou o não agir. E os últimos acontecimentos acabam sendo o estopim para que as duas decidam pela primeira opção. 

E é assim que elas acabam indo parar na cidade de Tiburon — na casa rosa — onde residem três irmãs que as acolhem. Na residência das irmãs tem uma criação de abelhas, o mel que elas vendem — Madona Negra — é bem conhecido e procurado na região. Lily passa a ajudar na produção do mel e, à medida em que ela vai aprendendo o ofício, nós, leitores, vamos entrando na ‘vida secreta das abelhas’ junto com ela.

No início, pensei que as descrições sobre como funcionava a criação das abelhas pudesse tornar a leitura enfadonha, mas isso não acontece. As descrições são interessantes e sutis. Porque a forma como a autora conduz a narrativa faz com que a gente conheça ao mesmo tempo esse mundo das abelhas e as personagens. E é uma mescla que funciona muito bem.

A leitura é triste e difícil em alguns momentos, mas a autora consegue encontrar o equilíbrio. Porque ela faz com o leitor tenha contato com todas as dificuldades com que os personagens tem que lidar, mas ela consegue trazer à tona também as virtudes dos personagens e como eles crescem e amadurecem nesse tempo. Os personagens são bem únicos, possuem personalidades marcantes, eles são bem distintos entre si e é enriquecedor ver como eles interagem, como eles convivem.

“A vida secreta das abelhas” é um livro muito rico em reflexões. Sobre preconceito, perda, abandono, culpa, autoconhecimento e sobretudo sobre amor, nas suas mais diversas formas.

“‘Você sabia que há trinta e duas palavras para ‘amar’ em uma das línguas dos esquimós?’, August falou. ‘E nós só temos uma. Somos muito limitados, temos de usar o verbo amar tanto com relação a Rosaleen quanto à Coca-Cola com amendoim. Não é uma vergonha não termos mais formas de dizer isso?’” Página 108

Sue Monk Kidd tem a capacidade admirável de criar histórias e personagens inspiradores. A história é sensível e engraçada. Profunda e leve. Terminar essa leitura me encheu do sentimento de satisfação. Terminei de ler e me senti... feliz, agradecida, por ter conhecido e passado algum tempo com essa história e personagens.


O livro foi adaptado para o cinema e teve sua estreia em 2008. Dirigido por Gina Prince-Bythewood; com Dakota Fanning no papel de Lily e Queen Latifah como August — uma das irmãs.







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Livro: A vida secreta das abelhas
Título Original: The secret life of bees
Autora: Sue Monk Kidd
Tradução: Maria Ignez Duque Estrada
Páginas: 232
Editora: Paralela

2 comentários:

  1. Ótimo ponto de vista! Sempre vejo boas resenhas sobre este livro “A vida secreta das abelhas”. Acho que estou quase encarando a leitura. Ótimo blog!

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    1. Oi, Gabrihel! Fico feliz que tenha gostado do blog. Volte sempre! :) E sim! Esse livro merece uma chance, essa autora, aliás. Boas leituras! Beijos!

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